martes 15 junio 2021

PASOLINI NO BRASIL

Renan Guedes Sobreira*

Novelista, ensaísta, poeta e cineasta premiado com o Leone d’Argento em Veneza (1964), com o Urso de Prata e o Urso de Ouro, em Berlim (1971 e 1972) e com o Grand Prix Spécial du Jury, em Cannes (1974), Pier Paolo Pasolini marcou a história das artes literárias e cinematográficas com enredos políticos e, sobretudo, viscerais. Seus filmes foram proibidos em diversos países, inclusive nos Estados Unidos da América e no Brasil, sendo exibidos apenas muitos anos depois. 

Autor e obra continuam atuais, tanto nas denúncias feitas como na reação virulenta que provocam: na cidade de Ciampino, próxima a Roma, governada pelo partido de ultradireita Lega, foi proposta em setembro de 2020 a alteração do nome da biblioteca municipal, batizada de Pier Paolo Pasolini. As justificativas da proposta não são esclarecedoras, mas têm evidente cunho político. A resistência à alteração foi colocada pelo Partito Democratico e pelo Movimento 5 Stelle. Dentre suas obras mais polêmicas e instigantes está seu filme derradeiro, veiculado no ano de sua morte, 1975, Salò ou os 120 dias de Sodoma

Salò, localizada às margens do Lago de Garda, norte da Itália, conta com pouco mais de dez mil habitantes. Em 1943 foi alçada a capital da República Social Italiana, Estado fantoche do nazifascismo. Extinta em 1945, após a captura de Benito Mussolini, a, assim chamada, República de Salò foi reconhecida como independente por dez países. Sodoma, cidade descrita biblicamente, teria sido destruída pela crueldade, idolatria e sadismo de seus habitantes, que ensimesmados, dedicavam-se à estrita satisfação animalesca de seus desejos.

A reunião das duas referências geográficas na obra de Pasolini ainda faz remissão a Dante Alighieri ao tratar de círculos aos quais os humanos estão condenados a percorrer integralmente; e ao livro 120 dias de Sodoma do Marquês de Sade, também traduzido como Escola de Libertinismo, em que quatro homens ricos aprisionam quarenta e seis jovens e quatro cafetinas em um castelo para satisfazerem seus desejos tal qual os habitantes de Sodoma. 

Na obra de Pasolini, quatro líderes fascistas aprisionam dezesseis jovens num palácio durante a ocupação nazista de Salò, além de quatro cafetinas. Simbolicamente os chefes são um banqueiro, representando o poder econômico; um bispo, representante do poder eclesiástico; um duque, que representa a nobreza, a aristocracia, hoje interpretada como as classes mais abastadas; e um juiz, que representa o poder judicial, exercido em nome do Estado. 

Ali, os quatro dirigentes escutam as histórias de três cafetinas que remetem a Dante e a Sade, embalados ao som do piano tocado pela quarta. Divertem-se em jantares e jogos, que submetem os jovens a três círculos. No primeiro, o Círculo das Manias, os fascistas satisfazem seus desejos sexuais; no segundo, o Círculo das Fezes, com cenas de escatologia; e o Círculo de Sangue, no qual os dirigentes satisfazem seu sadismo por meio de mutilações, torturas e assassinatos. O filme foi recebido com furor pela sociedade italiana de 1975, que distante trinta anos do fim da Segunda Guerra Mundial e do regime nazifascista, seguia permeada por pensamentos de raiz mussolinística.

Neste segundo decênio do século XXI, os discursos antidemocráticos de feição fascista têm ressurgido tanto na Europa, como nas Américas. Mais do que ressurgir, têm ganho espaço e eleições. Considere-se a eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil, para exercício de mandato presidencial de 2019 a 2022, e o seu desempenho no cargo, à luz das críticas postas pela obra mencionada de Pasolini. Eleito, realiza formação do governo com um banqueiro, Paulo Guedes; vários religiosos evangélicos; empresários, aristocratas da República; e, inicialmente, um juiz, Sérgio Moro.   

A fase eleitoral é marcada pela disseminação volumosa de fake News, especialmente de cunho sexual. Sugeriu-se que o opositor político autorizaria o ensino, nas escolas de todo o país, de práticas sexuais a crianças; instigaria jovens e crianças à homossexualidade, sendo distribuído o, assim apelidado, kit gay, que, em realidade, tratava-se da cartilha Escola Sem Homofobia; além da suposta distribuição de mamadeiras fálicas.  

A obsessão de Jair Bolsonaro por temas ligados à sexualidade prosseguiu no exercício do mandato. Em seu primeiro ano, foi alvo de críticas ao compartilhar vídeo pornográfico no Twitter e indagar sobre a prática de golden shower; com a Ministra Damares Alves, sugeriu que as personagens de desenhos infantis Elsa e Bob Esponja seriam homossexuais; afirmou que as universidades federais são antros de orgias; constrangeu um viajante de feições asiáticas indagando sobre o tamanho de sua genitália. Em reunião ministerial, no segundo ano de mandato, o Presidente da República utilizou expressão de baixo nível e caráter sexual para indicar que opositores fariam resistência à sua gestão. 

Não se trata de inovação no repertório de Jair Bolsonaro, que enquanto Deputado Federal, fez agressivas declarações sobre estupro e uso do apartamento funcional exclusivamente para atos sexuais. Seu Círculo das Manias parece não findar, coexistindo com os demais. Recentemente seu governo editou polêmicas medidas dificultando e constrangendo a prática do aborto legal, em evidente resposta ao caso de estupro, engravidamento e interrupção da gestação de uma criança de dez anos de idade. 

O Círculo das Fezes na obra de Pasolini refere-se ao prazer advindo de práticas reprováveis e que são repetidas cotidianamente. Simbolicamente, portanto, a coprofagia é a preferência deliberada por alimentar-se diariamente de algo socialmente abjeto, na esperança de nutrir o corpo e a alma. A persistência do uso de notícias falsas e práticas espúrias é um adequado exemplo, que ultrapassa aquelas já citadas de conotação sexual. 

Investiga-se junto ao Tribunal Superior Eleitoral o uso de robôs e disparos em massa com notícias falsas durante a eleição a fim de favorecer o atual presidente, tema que também ocupa Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Críticas infundadas, informações caluniosas, estímulo à animosidade entre os Poderes da República, ataques ao Supremo Tribunal Federal são alguns dos recursos utilizados pelo Gabinete do Ódio. O regime se alimenta cotidianamente do ódio a ponto de praticamente institucionalizá-lo dessa forma. 

Oficialmente denominado Assessoria Especial da Presidência da República, foi apelidado exatamente pela natureza dos conteúdos difundidos. Os assessores trabalham em sala a poucos metros do gabinete presidencial, e foram também responsáveis pelo incidente diplomático entre o Brasil e a França, no qual o Presidente Bolsonaro deixou de receber o Chanceler francês, no auge de uma crise entre os países a respeito das queimadas na Amazônia. Na ocasião, foi noticiada a ocorrência de conflito de agendas. No entanto, no horário agendado ao dignatário europeu, Jair Bolsonaro apareceu a seus seguidores em redes sociais cortando o cabelo. No mesmo período, ofendeu a Primeira-Dama francesa. 

Mais recentemente, ao abrir a 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Jair Bolsonaro novamente alimentou seu séquito com diversas informações falsas e reprovadas pela mídia nacional e internacional, especialmente referentes à pandemia do Sars-CoV-2 e ao Meio Ambiente.

O auxílio-emergencial ofertado pelo governo brasileiro foi, em regra, de seiscentos reais, por três meses, somando mil e oitocentos reais, cerca de quatrocentos dólares. No entanto, o Presidente brasileiro afirmou que a monta chegou a mil dólares. Chefas de família monoparental tinham direito a valor mais elevado e receberam no total cerca de oitocentos dólares. Nenhuma categoria atingiu a quantia anunciada em discurso. Outras cifras citadas pelo mandatário brasileiro foram desmentidas posteriormente na imprensa nacional e internacional.

Segundo o Presidente Bolsonaro, Governadores de Estado e Prefeitos de Municípios realizaram restrições de liberdades com o aval do Supremo Tribunal Federal, referindo-se às ações de combate à pandemia e prevenção do contágio. Atuando sem orientação adequada ou coordenada do Governo Federal, os governantes locais foram impelidos à improvisação conforme os recursos disponíveis. 

Nalguns casos, como do Maranhão em que o Governador Flávio Dino é desafeto político de Bolsonaro, houve até mesmo intencional perturbação das medidas adotadas a nível local. Considere-se que Dino importou da China respiradores a aparelhar o sistema de saúde maranhense, mas foram confiscados pelo Governo Federal, sendo necessária medida judicial para reaver os itens. Noutra oportunidade, os respiradores foram trazidos por via aérea alternativa a fim de evitar constrangimentos. Chegando os aparelhos ao Maranhão e sendo distribuídos pelo estado, o Governador foi acusado pelo Presidente de importação ilegal. 

Bolsonaro afirmou que mantém a “política de tolerância zero com o crime ambiental”. No entanto, o presidente fora autuado por pesca ilegal e recebera multa de dez mil reais. O fiscal responsável pela aplicação da penalidade foi exonerado da Diretoria de Proteção Ambiental no primeiro ano de seu mandato. Sem qualquer respaldo técnico e contrariando a vida real, o Presidente sustentou que a floresta tropical, por ser úmida, não permite que o fogo se alastre.

Casos de intolerância com as religiões de matriz africana, têm crescido no Brasil, mas, ignorando dados, o Presidente conclamou o mundo a tomar parte no “combate à cristofobia”, discriminação contra os cristãos. Discurso amparado em dados falsos, afirmações inverídicas, incitação à animosidade internacional é perfeito exemplo da coprofagia do Governo Bolsonaro. 

O Ciclo de Sangue está representado no próprio tratamento dispensado pela União à questão da pandemia. Afirmando que a Covid-19 era apenas uma gripezinha superdimensionada pela mídia, o Presidente passou a afirmações de desprezo pela morte, ignorando o sofrimento daqueles enlutados pelos mais de 140 mil mortos pela Covid-19 no Brasil: “Eu não sou coveiro, tá certo?”, “Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”; “Vamos todos morrer um dia”.

Salò ou os 120 dias de Sodoma poderia, portanto, representar metaforicamente o Brasil da segunda década do século XXI, um país que atualmente “aos pobres tira o pão, aos poetas a paz”, como afirma Pasolini em Ao Príncipe. Espera-se, esperançando e não passivamente, que este filme brasileiro em breve acabará como um dia se terminou a República de Mussolini.


Pesquisador do Núcleo de Investigações Constitucionais, Universidade Federal do Paraná. Mestre em Direito Constitucional, Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-Universidad Internacional Menéndez Pelayo. Pós-graduado em Direito Parlamentar, Universidad Nacional Autónoma de México. Bacharel em Direito, Universidade Federal do Paraná.

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